As comemorações dos 102 anos da implantação da República, dia que
deixará de ser ferido nacional,que já estavam a gerar polémica, dado o caráter
particular que lhe foi conferido por uma cerimónia à porta fechada, ficaram
ainda marcadas por um protesto de duas mulheres, no Pátio da Galé.
Ainda no final do discurso de Cavaco Silva, uma mulher, que se
encontrava no fundo da sala, começou a protestar dizendo que lhe faltava
dinheiro, medicamentos, assistência social e que queria falar com algumas das
entidades presentes.
A mulher de 57 anos dizia-se desesperada com a sua situação de
pensionista com 227 euros por mês e que já estaria na miséria completa senão
fosse o filho. "As pessoas têm de começar a gritar, as pessoas têm de
começar a falar. Tudo isto é um disparate, com esta gente aqui cheia de
dinheiro", gritava quando a segurança a tentava por fora da sala.
Entretanto, irrompe pela sala a cantora líria Ana Maria Pinto a
cantar a música "Firmeza" de Lopes-Graça, com um poema Bde José João
Cochofel, terminando com uma grande salva de palmas, parecendo até que a sua
intervenção fazia parte do programa das comemorações.
"O meu dever cívico é não cooperar, é resistir. Canto pela
alma de Portugal", disse a cantora ao Expresso.
"Canção para Fernando Lopes-Graça pôr em música", assim
se chama a letra que Cochofel escreveu e que Ana Maria Pinto escolheu para cantar
no Pátio da Galé, onde, quase em privado, se assinalava o dia em que a
República foi implantada em Portugal, no ano de 1910.
"Não seja o travor das lágrimas/capaz de embargar-te a
voz;/que a boca a sorrir não mate/nos lábios o brado de combate./Olha que a
vida nos acena para além da luta./Canta os sonhos com que esperas,/que o
espelho da vida nos escuta", é o poema que Cavaco Silva não ouviu,
por já ter saído por um das portas laterais.