constrói-se a poesia, pedra a pedra de luz, imagem a
imagem, na busca da linguagem indócil, a quebrar a
solidão e a entrega. Farpa, espinho e lenho, mas também
júbilo e regozijo. Nada é impossível ao nosso imaginário,
em poemas inquietos e fulgentes, por onde a pantera corre,
ao longo de versos e sonhos.
constrói-se a poesia. Asa e voo voado, até se tornar
rosa de cintilação maior, a nomearmos a criatividade, a
fundação das escritas, em busca dos cometas suicidas e das
constelações, no labor do poema.
Sírius e cassiopeia. Oh, a nossa língua construída com
os rigores das palavras únicas,
sublevadas e insurretas.
constrói-se a poesia. Navegação de versos a derrubar
fronteiras, negando-se às obediências cegas e às
interdições, aos tempos de assombramentos e
obscurantismos.
A recusar princípios de aceite imposto e ruínas, de
onde nos espreitam já: os ditadores, os lobos da crueldade,
os censores e os inquisidores embuçados,
do Apocalipse.
constrói-se a poesia. A combater a escuridade e o
punhal da insídia, as mordaças, as algemas. Com o canto,
com as odes e os hinos de versos revoltosos, armados com
as nossas palavras de poeta, poente e alva.
Voo ardente e desacato.
constrói-se a poesia, no seu insondável trabalho de
sílabas e imagens, metáforas e rimas, coração tumultuado e
incansável, a combater as vozes obscuras, à cabeceira da
lonjura. Grão e bago de claridade de nos salvar, porque a
poesia redime mas não apazigua.
Porque a poesia salva, mas não aquieta.
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