Judite,
Pedro e todos os pais que perdem os seus filhos: não há palavras que vos
aconcheguem a alma. Não há nada. Pouco resta depois da morte de um filho.
Sobrevive-se, mas deixa de se viver. Rasga-se o coração, o céu e o chão e não
há grito que atenue a dor. Chora-se tudo de uma vez, chora-se a vida toda,
chora-se com lágrimas e sem elas, com gemidos e em silêncio. O que agora é um
corpo sem alma, o da mãe, foi outrora um corpo em flor, que gerou a vida mais
bonita do mundo inteiro. E que agora parte para nunca mais voltar. Para nunca
mais abraçar, beijar, conversar. Para nunca mais ouvir. A Judite, que só tem um
filho, nunca mais ouvirá a palavra “Mãe” para a chamar. Tal como o Pedro não
ouvirá a palavra “Pai”. Amamos um filho como não amamos mais ninguém. Este Amor
corre-nos nas veias, sacode-nos a vida, justifica tudo. Ensinar um filho é uma
das muitas tarefas dos pais, mas ninguém ensina os pais a atenuar a dor da
morte de um filho. Porque se olha para o horizonte e não se vê nada. Deixa de
haver amanhã. Ou até logo. Ou “mãe, não venho jantar”, ou “mãe hoje venho mais
tarde mas dorme que eu estou bem.” Claro que, até se ouvir a porta, não se
dorme. Mas não se admite. Faz parte.
Os filhos quando perdem os pais ficam órfãos.
Para os pais que perdem os filhos, o dicionário nem encontrou um nome. Porque
para esses, fica o vazio. Para sempre. Força e Amor, é o que desejo à Judite.
Ao Pedro. A todos os pais que ficam sem coração.


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